memorial Brasil

MEMORIAL BRASIL

Saí a procurar paisagens, encontrei sua gente. Esta, me ensina o sentido de suas paisagens.

O que me move a escrever é o convite a amar esse povo, superar as violências contra a humanidade e amar essas paisagens que fazem nossa identidade potencialmente mais rica, potencialmente menos limitada em nós mesmos, mais de todos, onde a contribuição pequenininha de cada um é parte de uma densa, dramática, rica herança: a vida é essencial e uma paixão maior, parte de nossa responsabilidade humana. A estrada me ensina o caminho. Vida e dia-a-dia de cada um me ensinam o sentido da vida e de minhas responsabilidades. Paisagens que me encantam, belezas sem fim, naturais, do trabalho e das pessoas, que debaixo desse céu estrelado e desse luar sedutor revelam por tempos imemoriais a paixão desta terra, seus homens, suas mulheres, suas crianças, seus velhos, sua sina de sol a sol.

O objetivo destes relatos é mostrar os lugares e o povo deste país, o que faz dos brasis Brasil. Nosso país, nosso lugar, nossa identidade. Independente de serem turísticos ou não, o que move o viajante é descobrir, pensar, conhecer, viver, e isto é aprender. Por vezes senti constrangimento de ser de outro canto, diante da desigualdade, da insensibilidade com que consumimos os mundos alheios. Daí um grande esforço em ser viajante sem ser “turista”, em ser estrangeiro de passagem pelos lugares sem perder o sentido humano, meu e dos outros.

Por isso as viagens são feitas sem roteiros preestabelecidos, são movidas por um desejo, uma intuição, uma necessidade. A água doce e salgada se revelou nestes percursos um segundo tema unificador. Entender a relação das cidades com suas águas ou sua carência acabou transcendendo em muito esse objetivo e revelou a relação das pessoas com suas águas, ou sua ausência.

Antecipo que no geral há um surpreendente espírito de negação das águas na construção das cidades, mesmo onde são abundantes, de separação entre o comércio que lhes anima o dia a dia do trabalho e a fruição das águas nessas estruturas urbanas. No plano individual e humano, ao contrário, estabelece-se uma rica e diversificada dependência das águas, de suas utilidades e prazeres, implicando ora em lutas, menos vezes em rejeição, ora em identificação.

Ver, descobrir, mostrar belezas é o motivo essencial da viagem. Mas não é apenas a beleza das paisagens o que nos move, mas a beleza humana que lhes atribui, modifica, nega ou acrescenta os sentidos. Descobrir paisagens é descobrir os brasileiros que nelas, integrados indissociavelmente, vivem suas vidas, seus sonhos, seus romances, suas esperanças, suas dores e angústias, por vezes desesperos; é partilhar por breve instante as dores inscritas não poucas vezes na pele e no coração, é usufruir, ainda que de passagem, o melhor de cada um, a bondade de tantos. É ser beneficiário, ainda que distante e de partida, de seu enorme potencial.

Potencial que tantas vezes a pátria-mãe tem negado, recusado, anulado: desperdiçado. Apenas raras vezes não foram as pessoas que me revelaram uma nova e surpreendente intuição, compreensão e olhar dos lugares por que passei, e assim de toda a vida pulsando seu drama nesse planeta maravilhoso e injusto. Com essas pessoas ampliou-se minha compreensão da humanidade e da paisagem em seus valores contraditórios. Ampliou-se minha desconfiança e rejeição das políticas locais, regionais, nacionais, partidárias etc., uma vez que o sentido da liberdade está no resgate do ser humano, do respeito ao seu potencial e à sua saga. Há gente ruim, sem dúvida, mas acho que há muito mais gente boa, calada e quieta, ainda que falando com suas vidas.

Potencial sobre o qual escrevo, que insiste em desabrochar criativo, forte, vital, autêntico, ainda que tantas vezes negado e ultrajado. Negado pelas elites, pelos governantes, por bandidos, por preconceitos injustificáveis, por interesses locais e regionais que se sobrepõem maldosa e irresponsavelmente à vida, mesquinhos, inconfessáveis, manipulando os outros desavergonhadamente em benefício próprio. Potencial que assim sobrevive nessa resistência humana silenciosa e eloquente que é da vida e espontânea, que revela os brasis que cada vez mais vamos amando, ainda que outros se disponham a dilapidá-lo, enquanto o vamos descobrindo pela gentil acolhida de sua gente.

Euler Sandeville Jr., 2003

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